Recebi este texto por email - do meu amigo Marcio Nicolau - atribuído ao escritor LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO que foi publicado no Jornal O Estado de São Paulo e O Globo (fonte: blog Conteúdo Livre) que considerei bastante pertinente. Nesse texto, o renomado escritor levanta a questão - com sua habitual e deliciosa ironia - acerca dessa CORRIDA quase cega efetuada pelos casais homoafetivos para legalizarem seus relacionamentos.
Segundo o autor, está ocorrendo uma certa retomada aos velhos princípios e valores sociais que até há algum tempo eram considerados ultrapassados.
Quando li o email na mesma hora caiu a ficha. Um dia antes havia comentado com minha filha ao assistirmos no jornal televisivo a mais uma notícia sobre o primeiro casamento gay realizado no Brasil: "olha só, Amora, como os gays estão parecendo princesas de contos de fada". E depois que li o texto do Veríssimo foi que tudo tornou-se ainda mais claro.
Estranho mesmo o ser humano. Gerações anteriores lutaram tanto para transgredirem, buscarem novos rumos e novas formas de expressão da afetividade e até chegaram a protestar contra as instituições - Igreja, Estado e propriedade privada - e agora retoma-se tudo. As pessoas hoje buscam uma maior religiosidade - até com extremismos -, as relações estão mais padronizadas e institucionalizadas; o capitalismo globalizado continua mais exacerbado do que nunca com um consumismo que coloca em risco até a integridade do próprio planeta, enfim, o novo homem rendeu-se aos ideais dos contos de fada - bastante dinheiro e uma relação afetiva estável -. Será?
De repente, é só mais um modismo, uma chuva de verão. Sinceramente, espero que sim. Não tenho absolutamente nada contra casamentos. Acho extraordinário quando pessoas se encontram e manifestam o desejo de ficarem juntas. Só não creio muito no 'felizes para sempre'. Sei lá, pode ser meu defeito de fábrica. Ou já estou velha demais para os contos de fada... Ou o conto de fadas no qual acredito é outro.
Mas essa é uma reflexão minha. Apresento a seguir o texto original para que seja objeto da reflexão de todos.
Com vocês, o SENHOR VERÍSSIMO:
"O mais notável nessa campanha por casamentos homossexuais não é o avanço dos movimentos gays e o ocaso de barreiras e preconceitos antigos, mas o prestígio do casamento. Com tantos casais heterossexuais dispensando o ritual matrimonial para viverem juntos, a insistência dos gays em se casarem como seus pais deveria aquecer o coração dos mais radicais dos bispos.
Eu sei que em muitos casos a oficialização do conúbio, se esta é a palavra, tem mais a ver com questões legais do que com romance, mas o que a maioria quer é o ritual.
Quer as juras públicas de amor eterno e todo o simbolismo da cerimônia tradicional, mesmo sem véus e grinaldas. Era de se esperar que quem escolheu um relacionamento sexual, digamos, anti-convencional, muitas vezes tendo que enfrentar a incompreensão ou a ira dos conservadores, quisesse distância do que é, afinal, o mais “careta” dos ritos sociais. Mas não. Querem o tradicional.
Este fenômeno deve ter a ver com outro de difícil compreensão. Ouvi dizer que as formaturas nas universidades brasileiras voltaram a ser paramentadas, com becas e tudo, não por insistência de pais tradicionalistas mas dos próprios formandos, que em vez da informalidade que se esperava deles num mundo cada vez mais prático e sem tempo para velhos costumes ou costumes de velhos, exigiram todas as formalidades.
No fim as pessoas querem significado. Querem que o valor do que fazem seja enaltecido pela cerimônia, qualquer cerimônia. Mesmo careta.
Seja como for, aposto que daqui a alguns anos, quando se puder fazer a estatística, menos gays dos que estão se casando agora terão se separado do que casais heteros. Se a instituição do casamento sobreviver aos tempos e aos modos, será em boa parte graças a eles e a elas."
" eu vejo o futuro repetir o passado...
eu vejo um museu de grandes novidades..."
eu vejo um museu de grandes novidades..."
O TEMPO NÃO PARA...
... mas o beija-flor para
acima das nuvens
pétalas murchas
sob o sol que não abre
cabeças formadas
no formol barato
instinto vazio
o cálice transborda!
Lou Albergaria
Imagens: Google Images