" (...)
Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra

Do que na mão que esmaga."

Hilda Hilst

Se gostou, volte sempre!!!!

terça-feira, 5 de julho de 2011

A MENINA NA ESTRADA DO SOL


A menina que fui ontem
renasce
em doces cachos de amora

Inventario cicatrizes
empilho ruínas, e

... o sol da janela
acena-me num largo sorriso:
“ - e então, vamos!”

Saí de casa sem levar bagagem...

Lou Albergaria

Imagem: Lali

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O PRIMEIRO SOUTIEN A GENTE NUNCA...


Nunca nos esquecemos do quanto é desconfortável crescer, ganhar formas sem que houvéssemos pedido. Por que será que a vida insiste tanto em nos presentear com coisas que não pedimos - cabelos brancos, flacidez da pele, dentes amarelecidos... - ainda que acompanhados de maturidade, equilíbrio, serenidade. 

Dizem que a vida é muito generosa; talvez, por isso, teime em nos dar tanto... medo, dor, alegria, tristeza, perplexidade, espanto, tesão, conflitos, acertos ou enganos... A vida é mesmo dada, até demais pra minha capacidade de assimilação.

Os seios da minha filha pré-adolescente crescem e ela se espanta todos os dias com tantas mudanças em seu corpo e eu me harmonizo com todas essas distraídas surpresas que acolho na alma: envelhecer é um dom que precisa ser cultivado desde a infância.

Acho tão lindo minha filha olhando para seus pequeninos seios e se encantando com o desabrochar da vida; e eu me emocionando com todo o jardim numa estação mais tranqüila e serena.

Essa contemplação de beleza tira dos meus ombros o peso dos dias, mas não as dúvidas do que encontrarei nessa nova fase.

Sempre fui enérgica, vibrante, impulsiva e agora toda essa placidez me assusta, bem como me tranquiliza. No corpo da minha semente vejo o quanto a vida pode ser justa ao nos apresentar o novo não como concorrência, mas para agregar valores e significado a toda uma existência.

Ver os seios da minha Menina despontarem é como se a vida estivesse me dando uma nova chance de rever meus erros e acertos, bem como de buscar novos caminhos que não me deixem acomodada frente às mudanças.

Envelhecer não precisa ser sinônimo de fraqueza e inércia. Lembrar do primeiro soutien da minha pequena Amora me enche de ânimo para tentar de novo todas as manhãs.

A felicidade é um exercício de aprendizado diário em que os tropeços não precisam necessariamente nos derrubar; podem servir de encorajamento, desde que saibamos driblar o confortável papel de vítimas e chamemos a vida pra tomar um chopp. Ou a própria filha daqui alguns anos, quem sabe...

Viver pode ser muito divertido e encantador, sim; basta saber prestar atenção. Ao invés de direcionar toda a libido no que perdemos, devemos nos exercitar para aprendermos a deslocar nosso olhar e percepção para o que ganhamos. E não é nada pouco. Eu e Amora já percebemos isso a olhos despidos...

Crescer e se tornar uma ‘Menina Má’; que não admite padrões, convenções, pessoas mandando em seu desejo, orgasmos, sarcasmos, manipulando o seu pensamento e compreensão do mundo. É um desafio conseguir se esquivar de tantos ‘ismos’ na formação de uma consciência crítica.

Os seios crescem e junto com eles a vontade de rebelião. Fazer motim. Existir incitando a não-acomodação. Não há idade para começar a aprender a viver uma vida que realmente vale a pena ser vivida.

Sinto-me também debutando em meu primeiro soutien, que um dia rasguei , mas hoje não mais. Não sinto mais tal necessidade. O sentimento de poesia agora me envolve e acalanta o espírito.

Os seios que aparecem em Amora são como setas lançadas ao futuro, desbravando caminhos que me mostram o quanto acreditar na vida e em nós, seres humanos, vale a pena. O surgimento de uma pequena Moça renasce em mim a esperança de tentar prosseguir. Sempre. Ainda que haja arranhões no percurso.

Lou Albergaria



sábado, 2 de julho de 2011

A NOVA CINDERELA


Recebi este texto por email - do meu amigo Marcio Nicolau - atribuído ao escritor LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO que foi publicado no Jornal O Estado de São Paulo e O Globo (fonte: blog Conteúdo Livreque considerei bastante pertinente. Nesse texto, o renomado escritor levanta a questão - com sua habitual e deliciosa ironia - acerca dessa CORRIDA quase cega efetuada pelos casais homoafetivos para legalizarem seus relacionamentos.

Segundo o autor, está ocorrendo uma certa retomada aos velhos princípios e valores sociais que até há algum tempo eram considerados ultrapassados.

Quando li o email na mesma hora caiu a ficha. Um dia antes havia comentado com minha filha ao assistirmos no jornal televisivo a mais uma notícia sobre o primeiro casamento gay realizado no Brasil: "olha só, Amora, como os gays estão parecendo princesas de contos de fada". E depois que li o texto do Veríssimo foi que tudo tornou-se ainda mais claro.

Estranho mesmo o ser humano. Gerações anteriores lutaram tanto para transgredirem, buscarem novos rumos e novas formas de expressão da afetividade e até chegaram a protestar contra as instituições - Igreja, Estado e propriedade privada - e agora retoma-se tudo. As pessoas hoje buscam uma maior religiosidade - até com extremismos -, as relações estão mais padronizadas e institucionalizadas; o capitalismo globalizado continua mais exacerbado do que nunca com um consumismo que coloca em risco até a integridade do próprio planeta, enfim, o novo homem rendeu-se aos ideais dos contos de fada - bastante dinheiro e uma relação afetiva estável -. Será? 

De repente, é só mais um modismo, uma chuva de verão. Sinceramente, espero que sim. Não tenho absolutamente nada contra casamentos. Acho extraordinário quando pessoas se encontram e manifestam o desejo de ficarem juntas. Só não creio muito no 'felizes para sempre'. Sei lá, pode ser meu defeito de fábrica. Ou já estou velha demais para os contos de fada... Ou o conto de fadas no qual acredito é outro.

Mas essa é uma reflexão minha. Apresento a seguir o texto original para que seja objeto da reflexão de todos.

Com vocês, o SENHOR VERÍSSIMO:

"O mais notável nessa campanha por casamentos homossexuais não é o avanço dos movimentos gays e o ocaso de barreiras e preconceitos antigos, mas o prestígio do casamento. Com tantos casais heterossexuais dispensando o ritual matrimonial para viverem juntos, a insistência dos gays em se casarem como seus pais deveria aquecer o coração dos mais radicais dos bispos.

Eu sei que em muitos casos a oficialização do conúbio, se esta é a palavra, tem mais a ver com questões legais do que com romance, mas o que a maioria quer é o ritual.

Quer as juras públicas de amor eterno e todo o simbolismo da cerimônia tradicional, mesmo sem véus e grinaldas. Era de se esperar que quem escolheu um relacionamento sexual, digamos, anti-convencional, muitas vezes tendo que enfrentar a incompreensão ou a ira dos conservadores, quisesse distância do que é, afinal, o mais “careta” dos ritos sociais. Mas não. Querem o tradicional.

Este fenômeno deve ter a ver com outro de difícil compreensão. Ouvi dizer que as formaturas nas universidades brasileiras voltaram a ser paramentadas, com becas e tudo, não por insistência de pais tradicionalistas mas dos próprios formandos, que em vez da informalidade que se esperava deles num mundo cada vez mais prático e sem tempo para velhos costumes ou costumes de velhos, exigiram todas as formalidades.

No fim as pessoas querem significado. Querem que o valor do que fazem seja enaltecido pela cerimônia, qualquer cerimônia. Mesmo careta.

Seja como for, aposto que daqui a alguns anos, quando se puder fazer a estatística, menos gays dos que estão se casando agora terão se separado do que casais heteros. Se a instituição do casamento sobreviver aos tempos e aos modos, será em boa parte graças a eles e a elas."

Luís Fernando Veríssimo



" eu vejo o futuro repetir o passado...
eu vejo um museu de grandes novidades..."

O TEMPO NÃO PARA...

... mas o beija-flor para
acima das nuvens
 pétalas murchas
sob o sol que não abre
cabeças formadas
no formol barato
instinto vazio 
o cálice transborda!

Lou Albergaria

Imagens: Google Images

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ASFIXIA



a manhã anoiteceu sem prévio aviso.

Imprevisível, revi meus erros
antes do abismo

A poesia enredada
caça os tormentos
por sobre o asfalto

esburacada pele
abrigo de ratos

vermes expelem beijos sem lastro.

Lou Albergaria

Imagem: Google Images